quarta-feira, 8 de maio de 2019

RÁDIO UNIVERSIDADE DE COIMBRA

DA ACADEMIA PARA O MUNDO



A RUC (Rádio Universidade de Coimbra) é uma secção cultural da Associação Académica de Coimbra e da Universidade. Foi fundada, simbolicamente, no dia 1 de março de 1986, o dia da Universidade de Coimbra. A partir de 10 de dezembro desse ano surgiram os primeiros serviços noticiosos com carácter regular. 
Contudo, a origem da rádio remonta à década de 40 do século XX com o Centro Experimental de Rádio, que começou a formar técnicos e locutores e deu início às emissões regulares em circuito interno nas cantinas universitárias, sendo também ouvida na cidade. 
Durante muitos anos teve também a colaboração da RDP Emissora Nacional, que concedeu algum do seu tempo de antena aos estudantes. 
A atual RUC teve os seus primeiros passos em 1982, ao serem adquiridos os meios técnicos capazes de garantir emissões regulares, dando-se também início ao processo de legalização, através do Pedido de Licenciamento de uma Estação Emissora, o que ocorreu em 14 de novembro de 1983. Ao ser licenciada, a Rádio Universidade de Coimbra tornava-se no primeiro órgão de comunicação social inteiramente composto e gerido por estudantes universitários. 
Desde então, a RUC dirige a sua atividade para a formação, informação, assuntos da academia e cultura, mas é, sobretudo, um espaço sempre aberto ao experimentalismo, diferente das restantes rádios do país pelo seu papel formativo e formato não convencional, variado e eclético. 
É a única rádio escola do país e dá formação anual em três vertentes: Informação, Locução & Realização e Técnica de Radiodifusão. 

Edifício da Associação Académica de Coimbra onde está instalada a RUC


No dia 3 de maio, os membros do Clube do Património os Génios de Castro fizeram uma visita às instalações da RUC, situadas no edifício da Associação Académica, onde lhes foi explicada a sua história, atividades e a importância da liberdade de expressão, por uma das responsáveis da instituição. Puderam ainda ver in loco a emissão ao vivo e experimentar a profissão de locutor, colocando músicas e simulando entrevistas, tal como se pode ver nas imagens.































sexta-feira, 3 de maio de 2019

ESCRITO EM COIMBRA À SOMBRA DE MINERVA


SERENATA NA SÉ VELHA

O CENÁRIO PRÓPRIO DO FADO DE COIMBRA


Todos os estudantes ficaram quietos, parados, como que presos ao eco que aumentava e se repetia


Foi numa noite enluarada. Numa dessas noites “vestidas de melancolia”, que só existem nos versos dos poetas… e em Coimbra. 
Subia lentamente o Quebra Costas. Quando galguei o último lanço da escadaria vi as pedras da Sé Velha envolvidas por uma mancha de luz suave e imóvel, deixando que os meus olhos recortassem nítida, no pórtico da igreja, a figura do Julião, garganta afamada na Academia. Havia serenata. 
A mancha de centenas de capas negras estacionava em grupo, no largo, a escutar em silêncio. A solidão das ruas desertas parecia também escutar. E, a terra inteira estava certamente aguardando a voz daquele estudante. Fiquei preso do encanto da noite doce. Ia ouvir cantar pela primeira vez o fado de Coimbra no seu cenário próprio. 
Bagão, doutor em guitarra, lá estava também, cingindo com amor aquele coração de madeira donde arrancava harmonia de acordes que enchiam os ares. 
No momento em que a figura do Julião, envolto na capa negra, se tornou hirta, como estátua em nicho de igreja, pareceu-nos que se suavizaram ainda mais os tons macios da lua. Então uma voz subiu, elevou-se, enchendo o silêncio:

Passam-se noites inteiras
Sem que me possa deitar…

Melodiosa e branda, a guitarra acompanha o chorado da letra. E, no meio de um silêncio fundo, a voz, de novo ganha volume e ternura.

E a lua já tem olheiras
De tanto m’alumiar!...

A cantiga ouvia-se nas ruas próximas, silenciosas e desertas. Todos os estudantes ficaram quietos, parados, como que presos ao eco que aumentava e se repetia, ao longe, por sobre a fita de prata velha do Mondego.


João Falcato in Coimbra dos Doutores


Nota: João Falcato (1915-2005), antigo estudante de Coimbra, foi contemporâneo e amigo de figuras gradas das nossas letras de quem guardava livros com honrosas dedicatórias, como Almeida Santos (que foi seu caloiro de República, em Coimbra), Mário Soares (a quem apresentou Maria Barroso, com quem se casaria, circunstância que os três relembravam, com humor até em entrevistas), Virgílio Ferreira, Torga, Namora, Alçada Baptista, Eugénio de Andrade etc. de artistas, Bual, Gil Teixeira Lopes e outros. Foi devotado amigo de Sebastião da Gama.


Manuel Simões Julião
(1915 – 1982)


Cantor de Fado de Coimbra que marcou uma época e ficou na memória de quem assistiu às serenatas de rua dadas na Velha Alta de Coimbra, como esta, na Sé Velha, descrita por João Falcato

quarta-feira, 1 de maio de 2019

ESCRITO EM COIMBRA À SOMBRA DE MINERVA


O LIRISMO DAS SERENATAS

Uma serenata na Coimbra de Outros Tempos

Passam cada ano gerações românticas, declamando em serões de velhas damas da Rua do Correio, ou do Corpo de Deus, o Noivado do Sepulcro e a Judia.
Época de guitarras e serenatas a desoras, com amores de virgens tísicas, de brancura ascética, que morriam em noites de lua, coroadas de flores de laranjeira, pálidas e loiras, muito loiras e frias.
Visões ossiânicas estimulando, hora a hora, a sentimentalidade de nossos avós que tantas vezes prendiam de coração as tricanas saudosas do sonho, até as levarem para a província onde ficavam ricas donas de porte heráldico e fidalga distinção, muito longe da lida consumidora e monótona do ferro.
Nos recessos da Alta há janelas desertas onde as trepadeiras secaram de abandono e se adivinham escadas de corda, descendo levemente no silêncio amigo das noites de amor.
Sobre cada pedra se faz uma jura, em todas as esquinas havia memórias de corações partidos de mágoa ou rasgos generosos de aventura que envergonham o calculismo frio da nossa idade.
Nas baladas da despedida, chorava o coro, de olhos em alvo, o enterro fatal das mocidades que voavam para a vida, sacudindo lenços brancos, molhados em lágrimas, com infinita saudade…
Adeus! Adeus!...


Hipólito Raposo in Coimbra Doutora


domingo, 28 de abril de 2019

VISITA AO GEFAC


AS MANIFESTAÇÕES DA CULTURA POPULAR E A SUA MANEIRA DE SER

O Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC) foi fundado, como Organismo Autónomo da Associação Académica de Coimbra (AAC), no ano de 1966. 
Desde esse ano, vem desenvolvendo um pormenorizado trabalho de recolha, tratamento e divulgação do património imaterial do nosso país. A sua atividade prolonga-se pela divulgação das manifestações tradicionais, formação e conceção de espetáculos originais. 
As manifestações populares são “transformadas” criativamente, quanto aos ajustamentos dos aspetos cénicos, o que resulta num espetáculo globalizante. O objetivo é acentuar o sentimento que provocou o aparecimento das manifestações e não tanto demarcar as várias regiões portuguesas. 
A instituição organiza formação, exposições, recolhas, publicações, Jornadas de Cultura Popular, espetáculos, teatro popular e performances. Este ano decorreram as “XVII Jornadas de Cultura Popular: A mulher e a cultura popular: ofícios, cantos e contos”. 
O GEFAC possui várias vertentes artísticas como Tocata, Dança e Teatro. Como organismo da Academia, durante o ano letivo fazem-se ensaios semanais abertos a qualquer pessoa que queira experimentar. 
Foi também por este o motivo que o Clube do Património dos Génios de Castro fez uma visita ao GEFAC no dia 26 de abril. Depois de nos terem sido mostradas a história e as atividades do organismo, os membros do clube foram convidados a participar nos ensaios desse dia, o que fizeram com muito entusiasmo e empenho. 

ALGUNS ESPETÁCULOS E ATIVIDADES DO GEFAC

De Lá Para Cá: Cantando e Andando

De novo Mar

Workshop “Danças Tradicionais Portuguesas”































terça-feira, 23 de abril de 2019

ESCRITO EM COIMBRA À SOMBRA DE MINERVA


JOSÉ SARAMAGO NA IGREJA DE SANTA CRUZ

 
José Saramago
O que ao viajante causa grande espanto é ver aqui [Igreja de Santa Cruz] deitado Afonso Henriques, quando ainda não há muitos dias o deixou à porta do Castelo de Guimarães, mais o seu cavalo, ambos muito cansados. Repreende-se por estar brincando com coisas sérias, e encara primeiro Afonso, depois Sancho, um que conquistou, outro que povoou, vê-os deitados sob estes magníficos arcos góticos e decide em seu coração de viajante que neste lugar se celebram quantos desde aquele século XII lutaram e trabalharam para que Portugal se fizesse e perdurasse. Se se levantassem as tampas destes túmulos veríamos um formigueiro de homens e mulheres, e alguns seriam os que tiraram estas pedras da pedreira, as transportaram e afeiçoaram, e, sentados nelas, na hora de jantar, comiam o que mulheres tinham cozinhado, e se o viajante não põe aqui ponto final é a história de Portugal que acabará por ter de contar. 
À mão esquerda de quem entra está o púlpito. Muita pedra e magnífica martelou João de Ruão. Este púlpito é uma preciosidade tal que do alto dele nem preciso seria que botassem fala os pregadores: com simples olhar os doutores da Igreja ali esculpidos, deveria a assistência ficar edificada, tão segura dos mistérios da Fé como dos segredos da Arte. 
Belos são também os azulejos que forram as paredes da nave, mas o azulejo deve ser olhado em doses homeopáticas: se o viajante abusa, entontece. O que vale é que na Igreja de Santa Cruz se pode passar dos azulejos historiados da nave para os de tipo tapete de sacristia. Aqui há bela pintura, o Pentecostes de Vasco Fernandes, a Crucificação e o Ecce Homo de Cristóvão de Figueiredo. O viajante sai confortado, passeia-se ao longo do cadeiral, e acha, para concluir, que Santa Cruz é muito bela. E quando sai já as mulheres não estão e são outros os conimbricenses que debaixo do arco se abrigam, cujo foi obra de frei João do Couto, setecentista. 

José Saramago in Viagem a Portugal

Viagem a Portugal / José Saramago. Lisboa: Caminho, 1994






terça-feira, 16 de abril de 2019

ESCRITO EM COIMBRA À SOMBRA DE MINERVA


HANS CHRISTIAN ANDERSEN ENTRA EM COIMBRA

 
Hans Christian Andersen, um dos mais famosos escritores de todos os tempos, visitou Coimbra em 1866 e deixou escritas as impressões da viagem



Coimbra está colocada numa colina, as ruas umas por cima umas das outras. Muitas casas erguem-se assim três a quatro andares acima de outras. São estreitas as ruas, que torneando a sobem. Altas escadarias de pedra conduzem, por entre edifícios modestos, de uma ruela a outra mais distante. Lojas várias, especialmente livrarias, há na cidade em grande quantidade. Por toda a parte se veem estudantes, aqui um só, de cabeça descoberta, a ler um livro, ali um grupo de braço dado. O traje que usam é pitoresco e faz-nos lembra os de Fausto e Teofrastes. Compõe-se de uma casaca longa e preta e de uma curta capa da mesma cor. A maior parte anda em cabelo, nas ruas e ao longo do rio Mondego. O barrete que alguns trazem é grande e pesado, uma espécie de barrete polaco pendente. Contaram-me que os estudantes, no Inverno, organizam uma vez por mês um espectáculo dramático, para o qual são convidados professores, residentes da cidade e respectivas famílias. Ouvem-se com frequência nas ruas guitarras e serenatas. E com guitarras ou espingardas aos ombros partem também, jovialmente, em cavalos alugados, à caça longe da velha cidade, nos bosques frescos ou nos montes, pelo gosto da vida e da aventura, assim guardando no coração recordações para os dias futuros da velhice. Deste modo, parece a vida correr alegre e despreocupada nesta natureza paradisíaca. Contaram-me, contudo, que no tempo de D. Miguel houve tumultos entre os estudantes, tendo este mandado logo enforcar alguns, o que não era de estranhar nesse tempo. 
O convento de Santa Cruz, que fica na parte baixa da cidade, é digno seguramente de uma visita. Ninguém vive aí e tudo e tudo está em abandono, mas os claustros à volta do pequeno jardim são de uma beleza verdadeiramente romântica, com os seus elegantes arcos em ruínas. Na igreja, de cada lado do altar-mor, erguem-se dois imponentes túmulos com figuras esculpidas em mármore. Aí repousam os reis D. Sancho I e Afonso Henriques. Também aqui se guarda um quadro pintado por Grão Vasco, mas no desenho e cor muito diverso das pinturas que vi em Setúbal. 
Do convento e da igreja as ruas sobem para a Universidade, um edifício grande que ocupa todo o alto da cidade. Aí, por uma das portas da cidade mais ao alto, na muralha da fortaleza em ruínas, entra-se no Jardim Botânico, rico em flores e árvores raras. Grandes palmeiras e magnólias em flor destacavam-se entre uma imensidade de outras árvores de folha e de agulha. Não se via, contudo, vivalma, e quase igualmente desolado era o belo caminho que daí partia por baixo das velhas muralhas da cidade. Erva viçosa e frescas trepadeiras cresciam por toda a parte e, à direita, nas quintas, sobressaíam laranjeiras, grandes ciprestes e sobreiros. Encontrei depois alguns estudantes, todos com os seus tarjes medievais. Um ia só, a ler um livro, três em animada conversa, as guitarras aos ombros. O seu aparecimento nestas paragens causou-me profunda impressão, era como se estivesse a viver noutro século e toda a sua poesia do passado me veio ao pensamento, mas nem de tudo tomei nota. 


Hans Christian Andersen in Uma visita em Portugal em 1866